Rendo minhas homenagens ao livro "Doidinho", de José Lins do Rêgo, sequência do "ciclo da cana-de-açúcar" iniciado em "Menino de Engenho". Nele, um romance autobiográfico escrito em 1933, se entrelaçam o internato e o engenho, contrapondo-se, entre um e outro, as injustiças e a opressão do sistema educativo do primeiro e a liberdade vivenciada no segundo.
Impressiona a maneira como o escritor regionalista aborda os detalhes, as tradições, cores e sabores do Nordeste. Desde as punições, como na passagem "- O senhor sabe que eu não quero moleques aqui; o senhor não se emenda. Venha para cá, seu atrevido. E o bolo estalou na sala" até às descrições mais triviais sobre o cotidiano como a farta mesa do seu avô, Coronel Zé Paulino, com cuscuz, requeijão, pamonha e canjica, é possível viajar no tempo e reviver como pensavam e se comportavam a gente daquela parte do Brasil do primeiro terço do século XX.
Outro exemplo é a devoção dos brasileiros a Maria, a santíssima que dá o primeiro nome às duas paixões amorosas do protagonista, Carlinhos: Maria Clara e Maria Luísa. A nossa "mariologia" será analisada por Luiz Mott, em História da Vida Privada no Brasil, como uma "faceta do machismo ibero-americano, uma sorte de compensação sobrenatural para contrabalançar a inferiorização do segundo sexo na sociedade colonial".
Outro exemplo é a devoção dos brasileiros a Maria, a santíssima que dá o primeiro nome às duas paixões amorosas do protagonista, Carlinhos: Maria Clara e Maria Luísa. A nossa "mariologia" será analisada por Luiz Mott, em História da Vida Privada no Brasil, como uma "faceta do machismo ibero-americano, uma sorte de compensação sobrenatural para contrabalançar a inferiorização do segundo sexo na sociedade colonial".
A marcante presença da religiosidade católica entre os brasileiros se verá influente também nos nomes dados aos engenhos citados no livro, como o Santa Rosa, Santana e Santo Antônio. Ou no nome do Colégio onde a história se desenvolve, Nossa Senhora, muito embora as liturgias católicas não fossem um exercício cotidiano dos personagens de "Doidinho". Outro aspecto curioso se dá a partir do modo como se processam os ensinamentos religiosos na visão do autor, qual seja, "do mesmo jeito com que no engenho ensinavam aos papagaios".
Há toda uma gama de características pessoais diferentes, nuances que contribuem para afiançar ainda mais a riqueza do livro. A frase atribuída a um dos personagens, "a ambição de fazer-se grande dera-lhe coragem de se mutilar", permeará a marcante presença das mudanças e tipos de transição de outros personagens de seus livros.
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